ABERTURA


Conta-se que na floresta Amazônica uma mulher deu à luz gêmeos. Ao ver os seus filhos, porém, quase morre de susto, pois ambos eram duas cobras pretas e monstruosas. Ela foi conversar com o pajé para buscar aconselhamento e ele recomendou que as mantivessem vivas, mas que as deixasse no leito do Rio Tocantins, que banha a cidade de Cametá.
Os dois irmãos gêmeos fizeram escolhas de vida diferentes.
Norato era bondoso e incapaz de praticar qualquer maldade. Quando anoitecia abandonava sua casca, trajava um elegante terno branco, assim como o seu chapéu, para ir às festas. Ao amanhecer visitava sua mãe e solicitava que quebrasse o encanto, mas ela ficava apavorada e dizia que não conseguia.
Já sua irmã gêmea, Caninana, matava pessoas que iam banhar-se no rio, virava canoas e barcos e jamais havia visitado sua mãe.
Então Norato resolve matar Caninana.
A briga entre os dois aconteceu nas águas do Rio Madeira, que se tornaram volumosas, cheias de ondas e redemoinhos. Nesse embate Norato vence e mata sua irmã.
Certa noite Norato conheceu um soldado, contou sua história e lhe pediu que quebrasse o encanto. Eles foram até as margens do rio onde estava sua casca, Norato apoderou-se do corpo da cobra e o soldado, sem nenhum receio ou medo, golpeou-o com uma machadada, fazendo com que escorresse o sangue, e pingou em seus dentes afiados três gotas de leite. E assim Norato se tornou homem.